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O encontro com o “Carniceiro da Bósnia”: as memórias de Allan Little sobre Ratko Mladić

Com a confirmação da morte de Ratko Mladić na prisão, o correspondente especial da BBC Allan Little relembra o impacto de ter conhecido o comandante sérvio-bósnio no início do conflito e os horrores da limpeza étnica nos Bálcans.

Leitura estimada: 6 min

Ratko Mladić durante o julgamento no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia em 2017

O falecimento do ex-comandante sérvio-bósnio Ratko Mladić na prisão, aos 84 anos, encerra um dos capítulos mais sombrios da história europeia recente. Conhecido internacionalmente como o “Carniceiro da Bósnia” por liderar campanhas de extermínio e perseguição durante as guerras dos Bálcans na década de 1990, Mladić deixou um legado de dor que ainda ecoa na região. Entre as testemunhas oculares da ascensão de sua brutalidade está o correspondente especial da BBC, Allan Little, que acompanhou de perto a dissolução da antiga Iugoslávia e encontrou o líder militar nos primeiros meses da Guerra da Bósnia, em 1992.

As memórias de Little, resgatadas após a confirmação do óbito do criminoso de guerra, oferecem um relato íntimo e perturbador sobre a personalidade de Mladić e o impacto devastador de suas decisões sobre a população civil. O jornalista descreve um cenário onde a violência sistemática rapidamente se transformou em uma política de Estado informal, culminando no pior massacre em solo europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O fanatismo por trás do aperto de mão

No primeiro verão quente da guerra na Bósnia, Allan Little obteve acesso ao quartel de Lukavica, situado na periferia sul de Sarajevo. O local funcionava como um centro nervoso militar, repleto de armamentos e sob a constante movimentação ameaçadora de forças paramilitares. Little recorda que, naquele período, o mercado paralelo de armas operava de forma escancarada: era possível adquirir um fuzil Kalashnikov por 200 dólares ou uma granada de mão por apenas um dólar — o mesmo valor cobrado por um único ovo fresco na Sarajevo sitiada.

Foi nesse ambiente que o repórter apertou a mão de Ratko Mladić. O general sérvio-bósnio segurou a mão do jornalista com firmeza, puxando-o para perto. Mladić acabara de retornar da linha de frente no centro de Sarajevo e, segundo Little, exalava uma energia intensa, visivelmente estimulado pela proximidade física dos combates.

Durante vários minutos, sem soltar a mão do correspondente e fixando-o com o olhar, Mladić proferiu um discurso contraditório. Declarou-se o “grande defensor da fraternidade e da unidade” na antiga Iugoslávia e afirmou que seu maior sonho era um mundo sem armas e sem guerras. No entanto, a contradição entre a retórica pacifista e a realidade violenta ao redor revelou ao jornalista a verdadeira natureza do comandante. Little registrou que, já naquele momento inicial, Mladić se mostrava um fanático perigoso.

A redução humana e a resposta do músico

A guerra rapidamente impôs uma lógica de divisão étnica simplista que desumanizava as vítimas. Little relata que, durante a cobertura, era comum observar à noite os incêndios provocados pelas campanhas de limpeza étnica que consumiam a paisagem. Na escuridão dos vales, os vilarejos queimados cintilavam em tons de laranja, enquanto homens tentavam proteger suas casas portando armas antigas herdadas de conflitos passados.

Em uma manhã daquele período, o jornalista testemunhou a saída de uma coluna de aproximadamente 40 mil pessoas de uma floresta. Eram civis que haviam fugido às pressas após a queda repentina de sua cidade natal diante do avanço das forças sérvias. A maioria caminhava a pé; outros se amontoavam em veículos agrícolas antigos puxados por burros.

Entre os refugiados, Little conversou com um homem de 80 anos que aparentava extrema exaustão. Com a pele pálida e a testa machucada por uma queda recente, o idoso relato ter se separado da esposa durante a fuga e temia por sua sobrevivência. Ao ser questionado pelo repórter se era croata ou muçulmano — utilizando a categorização étnica padrão adotada pela imprensa e pelos combatentes —, o homem deu uma resposta que marcou profundamente a trajetória do jornalista:

“Eu sou um músico.”

Essa resposta, conforme Little reflete anos depois, expôs a falha das narrativas de guerra que reduziam indivíduos complexos — médicos, encanadores, cientistas, agricultores, pais e crianças — a meros rótulos étnicos para justificar a violência.

O rastro de destruição e o genocídio

As ações subsequentes das forças sob o comando de Ratko Mladić confirmaram as piores previsões sobre o seu fanatismo. Sob sua liderança, as tropas sérvio-bósnias perpetraram crimes de guerra sistemáticos que introduziram de forma definitiva o termo “limpeza étnica” no vocabulário contemporâneo dos conflitos armados.

As campanhas militares envolveram assassinatos em massa, extermínio planejado, estupros sistemáticos e expulsões forçadas de populações inteiras. Vilarejos foram incendiados sistematicamente com o objetivo de estabelecer um território sérvio etnicamente puro nas regiões da Croácia e da Bósnia. O ápice dessa política de extermínio ocorreu em Srebrenica, em 1995, onde as forças comandadas por Mladić realizaram o massacre de milhares de homens e meninos muçulmanos, ato formalmente classificado pela justiça internacional como genocídio.

Uma perda pessoal no front

A violência generalizada promovida pelo comando de Mladić também atingiu diretamente a equipe de cobertura da BBC. Apenas dois dias após o encontro de Little com o idoso músico, o cinegrafista Tihomir Tunukovic, de 25 anos, foi morto. Tunukovic, um jovem cineasta talentoso de Zagreb que trabalhava com Little há 18 meses, foi atingido por disparos efetuados por um atirador sérvio posicionado em uma colina acima da estrada onde ele trafegava.

A morte do colega de trabalho forçou a equipe a transportar o corpo por estradas montanhosas precárias até a cidade costeira de Split, onde ocorreu o funeral. Little destaca que a dor da perda conectou os jornalistas de forma direta aos sentimentos de vingança e contra-vingança que alimentavam o conflito. Embora o general Mladić não tenha puxado o gatilho que matou Tunukovic, o correspondente enfatiza que o comando do general estabeleceu uma atmosfera de permissividade deliberada que resultou na perda de dezenas de milhares de vidas.

Fontes consultadas

Confirmação e verificação independente

O Mecanismo Residual Internacional para Tribunais Criminais, órgão das Nações Unidas responsável pelo caso, confirmou que Ratko Mladić morreu em 27 de agosto de 2026 enquanto estava hospitalizado em Haia. Autoridades neerlandesas iniciaram os procedimentos previstos na legislação local.

A morte também foi confirmada por agências internacionais. Mladić cumpria prisão perpétua após condenação por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O relato de Allan Little apresentado nesta matéria é uma memória jornalística e deve ser lido separadamente dos fatos estabelecidos pelas decisões judiciais.

Fontes adicionais de verificação

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