A camada de gelo da Antártida registrou ganho líquido de massa entre 2020 e 2024, mas isso não significa que o aquecimento global tenha sido revertido. Uma pesquisa apoiada pela Agência Espacial Europeia concluiu que nevascas excepcionalmente intensas superaram, temporariamente, a aceleração da descarga de gelo para o oceano.
Quanto gelo foi acumulado
Dados de satélite indicavam perda anual líquida entre 90 e 142 bilhões de toneladas no início da série analisada, em 2002. A partir de 2016, o ritmo de perda diminuiu. Entre 2020 e 2024, o balanço passou para ganho médio próximo de 68 bilhões de toneladas por ano.
Ao mesmo tempo, a quantidade de gelo descarregada por geleiras e desprendimento de icebergs aumentou em quase 100 bilhões de toneladas anuais em relação às duas décadas anteriores. O ganho ocorreu porque a neve adicional foi ainda maior.
Rios atmosféricos levaram mais umidade
Os pesquisadores identificaram mudanças na frequência e intensidade de rios atmosféricos, corredores estreitos que transportam grandes volumes de vapor d’água. Ventos fortes levaram mais umidade para o continente, aumentando a precipitação em áreas da Antártida Oriental, Terra de Wilkes, Terra da Rainha Maud e Península Antártica.
Uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor. Em termos aproximados, cada grau de aquecimento amplia em cerca de 7% a capacidade de armazenamento de umidade. Quando essa umidade alcança o interior gelado, pode cair como neve.
O papel do gelo marinho
Simulações indicam que a redução do gelo marinho pode ter contribuído com aproximadamente 11% do aumento de neve no inverno e 3% no verão. Águas mais expostas favorecem evaporação, mas o transporte atmosférico continua sendo decisivo.
Por que o resultado não contradiz a crise climática
O balanço de massa combina entradas, principalmente neve, e saídas, como derretimento e descarga de geleiras. Um intervalo curto de ganho não apaga a tendência de longo prazo nem elimina os riscos associados ao afinamento das plataformas de gelo.
Se as plataformas flutuantes continuarem a enfraquecer, as geleiras apoiadas em terra podem acelerar em direção ao oceano. Além disso, alguns anos com menos rios atmosféricos seriam suficientes para devolver o balanço ao território negativo.
Como a massa é medida do espaço
Missões gravimétricas como Grace detectam mudanças minúsculas no campo de gravidade terrestre. Variações na quantidade de água e gelo modificam a atração gravitacional e podem ser convertidas em estimativas de massa ao longo do tempo.
Os resultados reforçam que a Antártida responde simultaneamente a processos que adicionam e removem gelo. Compreender esse equilíbrio é essencial para projeções do nível do mar.
Fonte: Agência Espacial Europeia e artigo científico publicado em Communications Earth & Environment.





