Bolhas de ar aprisionadas no gelo da Antártida funcionam como pequenas amostras da atmosfera antiga. Cientistas australianos estão extraindo dióxido de carbono, metano e óxido nitroso de gelo com cerca de 3 mil anos para reconstruir mudanças climáticas do passado e aperfeiçoar métodos que serão usados em registros muito mais antigos.
Como a atmosfera fica guardada no gelo
Ao longo do tempo, sucessivas camadas de neve são comprimidas até formar gelo. Nesse processo, pequenas porções de ar ficam isoladas em bolhas. O material analisado foi coletado a aproximadamente cem metros abaixo da superfície na Antártida Oriental.

Uma das técnicas usadas é a sublimação: o gelo é aquecido em uma câmara de baixa pressão e passa diretamente para vapor. A água volta a congelar em uma parte resfriada do equipamento, enquanto os gases atmosféricos são direcionados para análise. Uma amostra de 50 gramas pode liberar poucos mililitros de ar, quantidade suficiente para medir suas concentrações.
Dois métodos complementares
A equipe também desenvolve um sistema de fluxo contínuo. Nesse método, longas seções de gelo são derretidas verticalmente na ordem em que se formaram, permitindo acompanhar as variações de metano ao longo do núcleo. A expectativa é processar dezenas de metros de gelo por dia.
Combinar medições pontuais e contínuas ajuda os pesquisadores a analisar camadas profundas, nas quais centenas de anos podem estar comprimidos em poucos centímetros.
Em busca de um registro com mais de um milhão de anos
O projeto Million Year Ice Core pretende recuperar gelo próximo à base da camada antártica, a cerca de 3 mil metros de profundidade. O objetivo é obter um registro climático superior a um milhão de anos e investigar por que os ciclos glaciais passaram de aproximadamente 40 mil para 100 mil anos.
Essas informações permitirão comparar as concentrações atuais de gases do efeito estufa com variações naturais muito anteriores à atividade industrial e ajudarão a testar modelos climáticos.
Fonte consultada: Australian Antarctic Program, notícia publicada em 2 de junho de 2026. Texto original produzido pelo Memória do Gelo.





