Um estudo internacional liderado por cientistas do Programa Antártico Australiano identificou processos até agora pouco representados nos modelos climáticos que podem acelerar o derretimento sazonal do gelo marinho da Antártida. Além de quebrar as placas de gelo e ampliar o contato com a água, as ondas podem invadir a superfície, remover a neve, triturar o gelo e favorecer o crescimento de algas que escurecem as placas.
O trabalho foi publicado em 9 de junho de 2026 na revista científica The Cryosphere e reúne observações, modelagem e fundamentos físicos. Os autores tratam os resultados como uma hipótese fundamentada que ainda precisa de medições adicionais em campo para ser quantificada em toda a Antártida.
Três mecanismos ligados às ondas
A pesquisa descreve três processos conectados. O primeiro, chamado de inundação por ondas, ocorre quando a água do mar passa sobre as placas e remove ou encharca a cobertura de neve. O segundo é a pulverização: o movimento das ondas faz as placas colidirem e produz uma mistura de fragmentos e neve úmida. O terceiro é o chamado esverdeamento, quando essas condições favorecem a proliferação de algas no gelo e na água acumulada sobre sua superfície.
Essas mudanças reduzem o albedo, isto é, a capacidade de refletir a luz solar. Segundo a Australian Antarctic Division, placas cobertas de neve podem refletir mais de 85% da radiação solar incidente, enquanto o oceano escuro absorve cerca de 93%. A perda de neve e o escurecimento do gelo permitem que mais energia seja absorvida, reforçando o derretimento.
Quanto o processo pode acelerar o degelo
Os cálculos apresentados no artigo estimam que os efeitos das ondas podem aumentar o derretimento vertical em até 5,2 centímetros por dia. Quando o crescimento de algas é incluído, o valor máximo estimado chega a 6,1 centímetros por dia. Em uma situação teórica, uma placa com um metro de espessura poderia desaparecer em aproximadamente 20 dias apenas pelo efeito das ondas, ou em cerca de 16 dias com a amplificação biológica.
Os pesquisadores ressaltam que esses valores não representam uma previsão uniforme para todo o continente. Eles são estimativas baseadas nas condições estudadas e servem para mostrar que o mecanismo pode ser relevante, principalmente na zona marginal do gelo, onde as ondas do Oceano Austral encontram as primeiras placas.
Por que isso importa para o clima
O gelo marinho antártico passa por uma das maiores transformações sazonais da Terra: sua área cresce para aproximadamente 18 a 19 milhões de quilômetros quadrados no inverno e recua para cerca de 2 a 3 milhões no verão. Essa expansão e retração influenciam a reflexão de energia, a circulação oceânica e os ecossistemas do Oceano Austral.
Modelos climáticos ainda têm dificuldade para reproduzir a velocidade média do recuo observado por satélites durante o verão. A equipe sugere que a ausência dos processos de inundação, pulverização e esverdeamento pode explicar parte dessa diferença. Incorporá-los em modelos futuros pode melhorar as projeções sobre o gelo polar e suas conexões com o sistema climático global.
Consequências para os ecossistemas
As algas do gelo são importantes para a cadeia alimentar do Oceano Austral, incluindo o krill e os animais que dependem dele. Ao mesmo tempo, seu crescimento pode escurecer a superfície e acelerar o derretimento. Essa ligação entre física e biologia mostra que o efeito das ondas não se limita à fragmentação mecânica das placas.
A pesquisa também pode ajudar a entender mudanças no Ártico, onde a redução da cobertura de gelo abre áreas maiores para a formação de ondas pelo vento. Os autores recomendam novas observações com câmeras autônomas em quebra-gelos, sensores e campanhas oceanográficas para medir a frequência e a intensidade desses processos.
O que está confirmado e o que ainda precisa ser estudado
- Confirmado: ondas quebram placas, removem neve, promovem inundação superficial e alteram a quantidade de luz absorvida pelo gelo.
- Estimado pelo estudo: o aumento do derretimento vertical pode alcançar entre 0,9 e 5,2 centímetros por dia, chegando a 6,1 centímetros com o efeito das algas.
- Ainda em investigação: a contribuição total desses mecanismos para todo o ciclo anual do gelo antártico e sua representação em modelos globais.





