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O custo real da guerra comercial: como as tarifas entre EUA e Canadá afetam o bolso dos cidadãos

A escalada tarifária entre os governos de Donald Trump e Mark Carney gera incertezas econômicas. Entenda como as novas taxas sobre carros, madeira, aço e bens de consumo impactam o bolso de canadenses e americanos.

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Donald Trump e Mark Carney durante discussões comerciais.

A escalada na disputa comercial entre os Estados Unidos e o Canadá atingiu um novo patamar de tensão. Após o retorno de Donald Trump à Casa Branca e a retomada de sua política protecionista, os vizinhos norte-americanos entraram em um embate econômico direto. Recentemente, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, respondeu às ameaças tarifárias de Trump impondo taxas retaliatórias sobre uma série de produtos importados dos EUA. Com o colapso das negociações bilaterais, analistas e entidades setoriais começam a mapear os impactos reais dessas medidas no cotidiano das empresas e das famílias de ambos os lados da fronteira.

Embora o discurso político frequentemente foque na proteção das indústrias nacionais, a prática mostra que as tarifas aduaneiras tendem a se traduzir em custos adicionais para o consumidor final ou em barreiras para o mercado de trabalho. A seguir, detalhamos como os principais setores da economia estão sendo afetados por essa disputa e o que é fato confirmado ou ameaça preliminar para os próximos anos.

O impacto no setor automotivo e o risco para os consumidores

O setor de automóveis, caminhões e autopeças é um dos pilares da integração econômica entre EUA, Canadá e México, com cadeias de suprimentos altamente interdependentes. Atualmente, o Canadá mantém uma taxa de importação de 25% sobre determinados veículos americanos, em vigor desde o ano passado. No entanto, a grande preocupação do setor reside em uma ameaça preliminar feita por Donald Trump: elevar as tarifas sobre veículos canadenses de 25% para 50% a partir de 1 de janeiro de 2027.

De acordo com Bernard Yaros, economista-chefe da Oxford Economics, as concessionárias de veículos absorveram a maior parte dos custos gerados pelas tarifas anteriores. Contudo, ele alerta que essa margem de absorção está se esgotando. Caso a tarifa de 50% sobre veículos e peças canadenses se confirme, o aumento deve ser repassado diretamente aos preços cobrados dos consumidores.

Yaros aponta ainda que o encarecimento das importações nos EUA pode acelerar uma tendência de fabricantes priorizarem veículos de luxo, SUVs e picapes, além de pressionar os preços no mercado de carros usados, caso a oferta de modelos novos e mais acessíveis fique restrita. Até o momento, o primeiro-ministro canadense optou por não responder à ameaça de Trump com uma tarifa equivalente de 50% para o setor automotivo.

Construção civil e o encarecimento da habitação

A disputa também atinge diretamente o setor de habitação e infraestrutura. O Canadá confirmou a equiparação de suas tarifas sobre aço e alumínio importados dos EUA às taxas americanas de 50%. Além disso, o governo de Mark Carney impôs taxas sobre diversos produtos de madeira americanos, como compensados (plywood), e até mesmo sobre parafusos utilizados na fixação de estruturas de madeira.

Essas medidas aumentam os custos operacionais das construtoras que dependem desses materiais importados. A Forest Products Association of Canada destacou que as tarifas elevam os custos em ambos os lados da fronteira. Do lado americano, Bill Owens, presidente da National Association of Home Builders (NAHB), fez um apelo público a Trump para que isente os materiais de construção de sua agenda tarifária, citando a crise contínua de acessibilidade à moradia no país. Segundo Owens, as tarifas sobre materiais de construção aumentam a incerteza do mercado, sobrecarregam as cadeias de suprimentos e elevam os custos de construção.

Dados oficiais de um relatório do Congresso dos EUA apontam que, em 2024, o país importou US$ 23 bilhões em produtos de madeira, sendo quase metade desse montante proveniente do Canadá. Vale destacar que as disputas sobre a madeira macia usada na construção civil (conhecidas historicamente como “guerras da madeira”) se estendem por décadas entre as duas nações.

Itens domésticos e a busca por alternativas locais

Diferente de rodadas tarifárias anteriores focadas quase exclusivamente em matérias-primas, a fase atual da disputa se destaca pela inclusão de uma grande quantidade de bens de consumo final. O Canadá incluiu em sua lista de taxação itens como tapetes, máquinas de lavar, móveis, geladeiras e até utensílios de cozinha, como facas, garfos e colheres.

Apesar do risco de aumento de preços para produtos importados dos EUA, analistas acreditam que o impacto direto sobre o bolso dos canadenses pode ser mitigado pela substituição de produtos. Bradley Saunders, economista de América do Norte da Capital Economics, avalia que a estratégia de Carney foi desenhada de forma intencional para atingir bens de consumo que possuem substitutos fáceis no mercado interno. Como exemplo, ele cita produtos de cuidados capilares, cuja demanda pode ser facilmente redirecionada para fabricantes locais, minimizando o impacto inflacionário nas famílias canadenses.

Por outro lado, o Budget Lab da universidade de Yale, que monitora os impactos das políticas governamentais americanas, prevê aumentos marginais nos custos de mobiliário e equipamentos domésticos para os cidadãos dos EUA, decorrentes principalmente das tarifas aplicadas sobre a madeira e outros insumos básicos de fabricação.

O mercado de bebidas e o retorno das restrições ao álcool americano

O setor de bebidas alcoólicas tornou-se um termômetro político da guerra comercial. No ano passado, em resposta a tarifas anteriores, diversas províncias canadenses baniram a venda de bebidas alcoólicas de origem americana. A medida provocou uma queda superior a 70% nas exportações da indústria de vinhos e destilados dos EUA para o Canadá.

Durante as recentes negociações comerciais, Mark Carney chegou a solicitar às províncias que reabrissem as prateleiras para as bebidas americanas. No entanto, com o colapso das conversas bilaterais, a tendência confirmada por analistas é o retorno do banimento. Atualmente, apenas as províncias de Saskatchewan e Alberta ainda comercializam bebidas alcoólicas dos EUA. Saskatchewan, contudo, já anunciou a aplicação de uma taxa própria de 50% sobre as bebidas importadas dos EUA, programada para entrar em vigor em 8 de setembro, coincidindo com o início das tarifas federais canadenses mais amplas.

Empregos e o futuro do acordo comercial USMCA

Além do impacto direto nos preços, a incerteza gerada pela guerra tarifária afeta o planejamento de investimentos de longo prazo e a manutenção de postos de trabalho. Bradley Saunders, da Capital Economics, sugere que o impacto mais severo para as famílias pode não vir da inflação de produtos, mas sim da perda de empregos. Ele cita o exemplo de produtores de móveis sob medida na Colúmbia Britânica (BC), que agora enfrentam uma tarifa de 50% para exportar aos EUA, o que pode inviabilizar a operação dessas empresas.

A indústria florestal do Canadá, que emprega quase 200 mil pessoas, solicitou apoio governamental para estimular a demanda interna por meio de programas federais de habitação. Contudo, a própria associação do setor reconhece que nenhum pacote de ajuda estatal substitui o acesso confiável ao mercado de exportação dos EUA, que é o maior parceiro comercial do país.

A longo prazo, a instabilidade coloca sob pressão o acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México (USMCA). Embora o tratado continue operacional, Canadá e México manifestaram o desejo de renová-lo por mais 16 anos, enquanto o governo dos EUA declarou que não pretende renovar o acordo em seu formato atual. As tensões tarifárias em curso dificultam o avanço das negociações para o futuro do bloco.

Em termos de custo de vida imediato, John Iselin, diretor associado do Budget Lab de Yale, estima que o impacto direto desta disputa específica com o Canadá seja pequeno para os americanos, custando em média cerca de US$ 3 por família. No entanto, quando somada à guerra comercial mais ampla promovida por Trump — especialmente contra a China —, o custo adicional estimado para uma família média americana sobe para cerca de US$ 1.000 anuais. Segundo Iselin, a disputa com o Canadá não deve ser vista de forma isolada, mas sim como parte de uma sucessão de choques tarifários que tornam o ambiente de negócios global mais complexo.

Fontes consultadas

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