No sul da Groenlândia, cerca de 20.000 ovelhas pastam livremente pelas colinas verdejantes durante os verões curtos e amenos e o início do outono. Quando o inverno se aproxima, os criadores locais reúnem os animais em estábulos para protegê-los do frio extremo. No entanto, em novembro de 2021, um evento climático severo quebrou essa rotina de forma trágica. A neve já havia coberto o solo da região quando uma chuva forte e inesperada caiu sobre a superfície gelada, congelando rapidamente e formando uma espessa e impenetrável camada de gelo.
Como nem todas as ovelhas haviam sido recolhidas a tempo, o resgate dos animais dispersos pelo terreno acidentado tornou-se praticamente impossível sob as condições escorregadias. Presas ao relento, as ovelhas não conseguiram romper a crosta de gelo para alcançar a vegetação sob a neve. Como consequência direta desse evento de “chuva sobre a neve” (conhecido pela sigla em inglês ROS, de rain-on-snow), centenas de animais morreram de fome e frio, expondo a vulnerabilidade das comunidades agrícolas do Ártico diante das rápidas mudanças climáticas.
O impacto devastador da chuva sobre a neve (ROS)
O fenômeno de chuva sobre a neve, outrora considerado uma raridade no Ártico, está se tornando mais frequente. Para investigar a fundo essas transformações, o projeto internacional Arctic Rain on Snow Study (AROSS), liderado pelo National Snow and Ice Data Center (NSIDC) e financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos, monitora e quantifica esses eventos de precipitação extrema. O objetivo é avaliar os impactos nos sistemas socioecológicos e determinar o ritmo de aceleração dessas ocorrências.
Bruce Forbes, professor de pesquisa na Universidade da Lapônia, na Finlândia, e integrante do projeto AROSS, acompanha de perto esses episódios. Segundo o pesquisador, compreender a dinâmica e as mudanças nos eventos de chuva sobre a neve é fundamental para que as comunidades afetadas possam se preparar e mitigar os desafios decorrentes do novo cenário climático.
Paralelos com a Sibéria e a perda de conexões
A tragédia ocorrida com as ovelhas na Groenlândia em 2021 não é um caso isolado no Ártico. Quando soube do ocorrido, Forbes imediatamente relembrou um desastre de proporções ainda maiores registrado em 2013 na Península de Yamal, na Sibéria. Naquela ocasião, um evento de chuva sobre a neve resultou na morte por inanição de 61.000 renas, que também não conseguiram romper a camada de gelo para se alimentar de líquens e gramíneas. O impacto econômico e social foi devastador para as famílias de pastores nômades da região, muitas das quais perderam todo o seu rebanho e foram forçadas a abandonar a atividade permanentemente.
Forbes dedicou 32 anos de sua carreira ao desenvolvimento de relações de confiança com essas famílias de pastores siberianos. Contudo, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 forçou pesquisadores ocidentais a deixarem o território russo, interrompendo o monitoramento direto na região. Diante disso, o projeto AROSS expandiu seu foco para outras áreas do Ártico, como o sul da Groenlândia, o Alasca e a Lapônia, buscando documentar e conectar as experiências de diferentes povos indígenas e pastores que enfrentam desafios semelhantes.
A história e a resiliência do pastoreio na Groenlândia
O sul da Groenlândia abriga cerca de 6.300 pessoas, o que representa aproximadamente 11% da população total da ilha. A região é caracterizada por vales isolados, fiordes profundos e um relevo montanhoso que dificulta o transporte terrestre, limitando o uso de veículos utilitários e motos de neve em áreas mais remotas. Nesse cenário desafiador, o pastoreio de ovelhas exige um esforço físico intenso, com caminhadas diárias que podem chegar a 30 quilômetros por mais de uma semana para reunir os rebanhos.
A atividade pastoril na ilha possui uma longa trajetória histórica. Em 2024, os moradores do sul da Groenlândia celebraram o centenário da reintrodução moderna do pastoreio de ovelhas. A prática foi originalmente introduzida pelos vikings em 985, quando Erik, o Vermelho, liderou os primeiros colonos nórdicos a partir da Islândia. Os nórdicos prosperaram na região por mais de 500 anos, criando vacas, cavalos, porcos e ovelhas, antes de desaparecerem por completo, deixando para trás ruínas de pedra que hoje são reconhecidas como Patrimônio Mundial da UNESCO.
Embora os nórdicos tenham desaparecido por razões ainda debatidas por historiadores — sem que haja uma teoria única confirmada —, os inuítes sobreviveram graças ao domínio de tecnologias de caça e ao acesso a recursos alimentares marinhos durante períodos de seca e frio extremo. No final do século XVIII, os inuítes começaram a experimentar a agricultura nas proximidades das antigas ruínas nórdicas. Em 1906, o pastor Jens Chemnitz reintroduziu ovelhas vindas das Ilhas Faroe e, em 1924, Otto Frederiksen restabeleceu a primeira comunidade moderna de pastoreio em tempo integral em Qassiarsuk. Atualmente, existem cerca de 37 fazendas ativas na região, responsáveis por mais de 80% da receita agrícola da Groenlândia.
Adaptação histórica e os novos desafios climáticos
Os pastores inuítes contemporâneos herdaram o conhecimento sobre eventos de chuva sobre a neve das gerações passadas. Nos invernos de 1966-1967 e 1971-1972, episódios severos de chuva sobre a neve atingiram a costa da Groenlândia, dizimando dois terços da população de ovelhas da época, que somava 45.000 animais. Para evitar novas catástrofes, uma reforma agrícola determinou o confinamento obrigatório das ovelhas em estábulos durante sete meses do ano.
Como o sul da Groenlândia não possui florestas para o fornecimento de madeira local, todos os materiais para a construção de cercas, currais e estábulos precisaram ser importados. Apesar das dificuldades logísticas, a medida provou-se eficaz para proteger os animais contra as intempéries do inverno. No entanto, as mudanças climáticas atuais estão superando as estratégias tradicionais de manejo.
De acordo com os relatos dos criadores e as observações científicas do projeto AROSS, a região tem registrado verões mais quentes, outonos mais longos, nevascas tardias e um aumento na frequência de chuvas durante o inverno. Forbes alerta que a ocorrência de temperaturas acima de zero grau Celsius acompanhadas de chuva no inverno está deixando de ser uma anomalia para se tornar o novo padrão climático na região. Sem o apoio direto de políticas da União Europeia — uma vez que a Groenlândia obteve sua autonomia política (home rule) em 1979 —, os pastores locais dependem essencialmente da troca de conhecimentos comunitários e de pesquisas científicas colaborativas para adaptar suas práticas e garantir a sobrevivência de sua cultura e subsistência.





