O Ártico enfrenta transformações rápidas devido às mudanças climáticas, aquecendo cerca de três vezes mais rápido do que a média global, conforme apontado pelo relatório Arctic Report Card de 2024. Entre as consequências mais preocupantes desse aquecimento está o aumento dos eventos de “chuva sobre a neve” (rain-on-snow ou ROS). Quando a chuva cai sobre a cobertura de neve acumulada e congela novamente, forma-se uma crosta de gelo espessa e impenetrável. Esse fenômeno impede que animais herbívoros alcancem o alimento sob a neve, resultando em episódios severos de fome em massa.
Para compreender a escala global desse problema e mapear como a proporção entre chuva e neve está mudando na região, o estudo internacional Arctic Rain on Snow Study (AROSS), liderado pelo Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos EUA (NSIDC), tem investigado a frequência e a variação dessas ocorrências. Um novo estudo decorrente do projeto AROSS, liderado pela pesquisadora Zaria Cast em colaboração com o diretor do NSIDC, Mark Serreze, foi submetido para publicação na revista científica The Cryosphere. O trabalho analisa a transição da precipitação de sólida para líquida em todo o território ártico.
Os desafios da coleta de dados no extremo norte
Estudar o clima do Ártico apresenta desafios geográficos e logísticos complexos. A região é composta por uma mistura de oceanos, gelo marinho, geleiras terrestres, tundra, florestas e até mesmo desertos polares — áreas caracterizadas por temperaturas extremamente baixas e baixíssima precipitação. A escassez de dados observacionais diretos dificulta análises de longo prazo. Estações meteorológicas terrestres são raras no extremo norte, concentrando-se historicamente em latitudes mais baixas, onde há maior densidade populacional e infraestrutura.
No oceano, a situação não é diferente. O programa de boias Argo, que monitora a temperatura dos oceanos globais com mais de 4.000 dispositivos, possui pouca atuação no Oceano Ártico devido à presença do gelo marinho, que danifica e impede a operação adequada dos equipamentos. Diante dessas limitações, os pesquisadores precisaram recorrer a métodos alternativos e modelos computacionais avançados para preencher as lacunas de dados.
Metodologia: combinando registros históricos e reanálise
Para contornar a falta de medições diretas contínuas, a equipe liderada por Zaria Cast utilizou múltiplas fontes de evidência. Os pesquisadores analisaram dados do Sistema Automatizado de Observação de Superfície (ASOS), filtrando registros inconsistentes para garantir a precisão científica. Ao final do processo de triagem, foram validados 765.610 registros de chuva e 18.174 registros de chuva congelante.
Além disso, o estudo utilizou dados históricos de uma pesquisa publicada em 1996, baseada no conjunto de dados Integrated Comprehensive Ocean-Atmosphere Data Set (ICOADS), que cobre a segunda metade do século XX. A principal ferramenta para a análise temporal recente foi a Reanálise ERA5, desenvolvida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF).
A reanálise ERA5 funciona como um modelo de previsão do tempo aplicado retroativamente, combinando dados de satélites, balões meteorológicos, aeronaves e estações terrestres para criar um registro consistente das condições atmosféricas passadas. O estudo limitou o uso dos dados de reanálise ao período de 1979 a 2023. O ano de 1979 foi escolhido como marco inicial devido ao início do registro sistemático por satélites, o que aumentou significativamente a confiabilidade das observações diárias sobre a terra e os oceanos.
Resultados complexos e variações regionais
Os resultados preliminares do estudo — que ainda aguarda revisão por pares na revista The Cryosphere — indicam que, embora a precipitação total tenha aumentado no Ártico devido à maior capacidade de retenção de umidade de uma atmosfera aquecida, a transição de neve para chuva não ocorre de maneira uniforme. A proporção de chuva em relação ao total de precipitação aumentou significativamente apenas em determinadas estações e regiões.
A maior mudança sazonal ocorre durante o verão, período em que a chuva predomina amplamente sobre as áreas terrestres. A principal exceção é a camada de gelo da Groenlândia, onde a chuva continua sendo extremamente rara. No entanto, o estudo relembra um evento atípico ocorrido em 18 de agosto de 2021, quando choveu no topo da camada de gelo da Groenlândia por várias horas, um fato inédito nos registros das estações meteorológicas locais.
Durante o outono, a proporção de chuva diminui rapidamente à medida que as temperaturas caem, dando lugar à neve. No inverno, quase toda a precipitação ocorre na forma de neve, exceto na porção mais meridional do setor atlântico do Oceano Ártico. O Atlântico Norte destaca-se como a região mais quente e úmida do Ártico, influenciada pela Corrente da Deriva do Atlântico Norte. No Mar de Barents, a transição de neve para chuva tem sido impulsionada em parte pela perda de gelo marinho, que expõe a superfície oceânica e libera calor e umidade para a atmosfera.
Fora do verão e da região do Atlântico Norte, o clima ainda não aqueceu o suficiente para alterar de forma significativa a proporção entre neve e chuva. Surpreendentemente, a comparação dos padrões recentes com os dados históricos de 1950 a 1995 revelou pouca mudança na proporção de chuva para neve em relação ao final do século XX, período em que o Ártico era mais frio do que atualmente.
Consequências devastadoras para a fauna ártica
Embora as mudanças na proporção de chuva e neve sejam localizadas, os impactos biológicos dos eventos de chuva sobre a neve são severos e confirmados por observações de campo. A formação de camadas de gelo sobre a neve impede que animais como renas, caribus e bois-miscarados consigam pastar, levando-os à morte por inanição.
Registros históricos detalham a gravidade desses eventos:
- Em outubro de 2003, cerca de 20.000 bois-miscarados morreram de fome na Ilha Banks, no Canadá, após um evento de chuva sobre a neve.
- Nos meses de novembro de 2006 e de 2013, estimativas apontam que aproximadamente 80.000 renas morreram de fome na Sibéria devido ao congelamento da cobertura de neve.
Além dos impactos sobre os animais terrestres e as comunidades humanas que dependem deles para subsistência, os eventos de chuva sobre a neve alteram a estrutura física da neve acumulada sobre o gelo marinho. Isso afeta diretamente o ciclo de crescimento e derretimento do gelo, prejudica a construção de abrigos por focas e dificulta o deslocamento de ursos polares.
Retorno das análises científicas no NSIDC
Além do avanço nas pesquisas sobre precipitação, o NSIDC anunciou atualizações sobre suas atividades de comunicação científica. Com o apoio financeiro do Climate Science and Communication Fund, administrado pela organização Surge Climate Talent, o site Sea Ice Today retomará a publicação de análises científicas mensais a partir do início de setembro de 2026.
Os relatórios mensais seguirão o formato anterior, abordando as condições climáticas e meteorológicas do mês anterior, o estado atual do gelo marinho em ambos os hemisférios e as perspectivas futuras. Discussões breves sobre o derretimento das camadas de gelo na Groenlândia e na Antártica serão integradas como seções curtas dentro dos relatórios do Sea Ice Today. No entanto, o site irmão Ice Sheets Today permanecerá pausado, e as postagens de meio de mês não serão retomadas durante o período de pico do derretimento do Ártico.
O NSIDC esclarece que as opiniões expressas nas postagens de análise refletem o posicionamento de sua equipe científica e não necessariamente representam a visão da instituição financiadora, Surge Climate Talent.





