Ciência, clima, tecnologia e acontecimentos globais

Transparência editorial

, ,

Google fecha seu maior acordo de remoção de carbono com projeto no RS

Parceria com a Terradot prevê reduzir metano em mais de 200 mil hectares de arrozais gaúchos e remover 1 milhão de toneladas de CO₂ com rocha vulcânica até 2040.

Leitura estimada: 4 min

Colheitadeira em lavoura de arroz no Sul do Brasil

O Google anunciou nesta quarta-feira (16) a maior compra de remoção de carbono já feita pela companhia. A parceria com a empresa climática Terradot prevê atuar em mais de 200 mil hectares de arrozais no Rio Grande do Sul, combinando duas estratégias: reduzir rapidamente as emissões de metano do cultivo e retirar dióxido de carbono da atmosfera com rocha vulcânica moída.

O acordo chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo desenho. Em vez de tratar metano e CO₂ como problemas separados, o projeto tenta coordenar uma ação de efeito mais rápido com outra de longa duração, usando as mesmas áreas agrícolas. O valor financeiro da transação não foi divulgado.

Como o projeto pretende reduzir o metano

Arrozais irrigados permanecem alagados durante parte do ciclo produtivo. Em condições com pouco oxigênio, a decomposição de matéria orgânica no solo favorece a formação de metano, um gás de efeito estufa que aquece a atmosfera com grande intensidade no curto prazo.

A primeira frente do projeto será a adoção do chamado umedecimento e secagem alternados. A técnica drena periodicamente os campos, em vez de mantê-los continuamente inundados. Segundo o Google e a Terradot, a mudança pode reduzir as emissões de metano e também o consumo de água, sem retirar as áreas da produção agrícola.

A meta contratada para essa etapa é gerar, até 2030, impacto equivalente à eliminação de 1 milhão de toneladas de CO₂ equivalente, calculado pelo potencial de aquecimento do metano em um horizonte de 20 anos.

Rocha moída para retirar CO₂ do ar

A segunda frente usa o intemperismo acelerado de rochas. Rocha vulcânica rica em silicatos é triturada e distribuída sobre o solo. Ao se dissolver com a água da chuva, seus minerais reagem com o CO₂ e ajudam a transformá-lo em formas químicas estáveis, como bicarbonatos.

Esse processo ocorre naturalmente, mas a moagem aumenta a superfície de contato da rocha e acelera as reações. A expectativa é remover de forma durável 1 milhão de toneladas de CO₂ até 2040.

Os dois números do acordo representam efeitos diferentes: a meta de 2030 corresponde à redução do impacto climático do metano, expressa em CO₂ equivalente; a meta de 2040 corresponde à retirada física de dióxido de carbono da atmosfera. Somá-los como se fossem a mesma modalidade de remoção seria impreciso.

Por que o Rio Grande do Sul

O estado concentra grande parte da produção brasileira de arroz irrigado e reúne campos extensos, disponibilidade de água e proximidade de fontes de rocha basáltica. Essas condições reduzem distâncias logísticas e podem favorecer a expansão do intemperismo acelerado.

Segundo o Google, o modelo poderá ser ampliado para os cerca de 1,5 milhão de hectares destinados ao arroz no Brasil e, no futuro, adaptado a outros grandes produtores. A Reuters informa que a Terradot iniciou atividades-piloto em 2026 e planeja avançar para a escala comercial a partir de 2028.

IA, data centers e a pressão por resultados climáticos

O anúncio ocorre enquanto empresas de tecnologia enfrentam cobrança crescente pelo consumo de energia e pelas emissões associadas à expansão de data centers e sistemas de inteligência artificial. A Folha informou que as emissões do Google chegaram a 14,4 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2025, alta de 18% em um ano e de 80% em relação a 2019.

Nesse cenário, financiar remoção de carbono pode ajudar a desenvolver tecnologias climáticas ainda caras. Isso, porém, não substitui a redução direta de emissões nas operações, na eletricidade e na cadeia de fornecedores. O resultado real do projeto brasileiro dependerá da implantação nas fazendas, da adesão dos produtores e de medição e verificação independentes.

O que o projeto pode representar para o Brasil

Se entregar as metas anunciadas, a iniciativa poderá colocar a agricultura brasileira no centro de um modelo que combina manejo hídrico, redução de metano e remoção mineral de carbono. Também poderá gerar dados sobre custos, produtividade, saúde do solo e permanência do carbono em uma escala ainda pouco testada.

O principal ponto de atenção será transformar metas de longo prazo em resultados mensuráveis. A dimensão do contrato cria expectativa, mas a credibilidade virá da transparência dos métodos, da verificação dos créditos e da divulgação periódica do desempenho.

Fontes

Imagem destacada: colheita em uma lavoura de arroz perto de Rio do Sul, em Santa Catarina. Imagem ilustrativa. Foto: Herr stahlhoefer/Wikimedia Commons, domínio público.

Mais recentes